Devaneios no busão

Outro dia estava eu entre dezenas de rostos desconhecidos na já habitual “viagem” de volta para casa. Desta vez, sentado. Embora os intensos raios de sol diminuíssem o alívio de não estar em pé mais uma vez. Condição que neste dia, apesar da sensação de calor, não passou de um mero detalhe. Afinal, um outro contexto, protagonizado a meu lado, me chamou muito mais a atenção.

Isso porque, à minha direita, um nobre passageiro desconhecido sentiu na pele o peso da decisão que tomou ao escolher a camisa que usaria naquele dia. Não sei a razão e não tive curiosidade suficiente para perguntar. Mas, por algum motivo, o homem optou por vestir a amarelinha da seleção brasileira. Uma situação bastante comum em terras tupiniquins e assim mais uma vez o seria, não fosse um outro homem e sua reação ao ver o “amigo” uniformizado.

Para começar, um pedido para segurar seus pertences. Até aí nada demais, afinal o tal “amigo” estava sentado, enquanto o homem que acabara de chegar continuaria em pé por um bom tempo. No entanto, logo após entregar a sacola que trazia, as palavras começaram a sair.

– Já está preparado para a Copa, hein?!

E assim, com um “leve” tapinha no peito do “amigo”, o gelo foi quebrado, pelo menos para o senhor ainda em pé, a se equilibrar enquanto o motorista do ônibus mostrava toda a sua “perícia” a guiar o veículo. E ali, entre uma boca e um ouvido, um verdadeiro monólogo começava.

Mas, faça-se a justiça, o “amigo” uniformizado tentou até ser simpático e com umas duas ou três frases correspondeu a ânsia por diálogo apresentada pelo colega de “viagem”, que, neste momento, aliás, já tecia vigorosamente suas críticas à atuação da seleção canarinho na Copa do Mundo de 1998. Assunto este, a propósito, que o fez lembrar de Romário, que, por sua vez, o fez lembrar de Pelé.  E neste ritmo, apropriado para poucos ouvidos, diga-se de passagem, uma sucessão de temas ganhavam vida e já geravam um certo burburinho no interior do velho busão.

No entanto, ao que pude perceber, a camisa era só um pretexto para o que viria na sequência. Afinal, enquanto alguns por ali ainda tentavam entender o que teria provocado as primeiras palavras daquele senhor de óculos escuros, ele já falava sobre casamento, amor, homem e mulher. Mas, detalhe, a essa hora, o rapaz, aparentemente evangélico, já com as mãos no rosto, procurava um lugar para se esconder. Mas o senhor continuava.

– O homem tem que faturar todo dia. Mas mulher na menopausa é uma desgraça.

Ele não suavizava. Sem poupar os ouvidos alheios ou se preocupar com reações adversas, falou de mulher gorda, dar no coro, ausência de desejo e, sem hesitar, continuava a falar. A esta altura, entre risos e desconforto, um lugar mais a frente foi desocupado e o senhor sentou.

Por um breve momento, parecia que o monólogo tinha chegado ao fim. Tanto é que o som a se sobressair a partir de então era emitido por crianças sentadas no fundo do ônibus. Elas, por sua vez, cantavam uma música em inglês. Ao menos era o que acreditavam.

Contudo, antes do “amigo” uniformizado descer, o senhor o olhou novamente e lhe proferiu mais algumas palavras sobre a falta de apetite sexual do homem diante de uma mulher gorda e na menopausa. E só não embalou novamente porque poucos minutos depois o rapaz precisou descer e assim o fez; aliviado, acredito eu. Sem o “companheiro”, o homem se calou.

Alguns metros depois, chegamos ao terminal de ônibus e todos descemos. O senhor desceu antes de mim. E quando foi a minha vez, o último a descer, ele ainda estava a poucos passos dos degraus, em pé, olhando em minha direção.

O que fiz? Eu, que optei por vestir uma camisa social, fui para a sombra. O que ele fez? Bom, ele seguiu seu destino.